Um dia de extremos – 2ª parte

bw VIAGENS Luís Garcia

 HOLLYWOODICES – EPISÓDIO 6

Eu tenho visto tanta coisa nesse meu caminho, Nessa nossa trilha que eu não ando sozinho, Tenho visto tanta coisa tanta cena, Mais impactante do que qualquer filme de cinema.
(Tás a ver?, Gabriel O Pensador)

UM DIA DE EXTREMOS – 2ª parte (Mónaco, 2007) – Depois do por-do-sol fomos de novo passear. Dessa vez entrámos num elevador escondido dentro da base do rochedo que ocupa a maior parte do principado e saímos bem mais acima numa avenida luxuosa com vista panorâmica para a costa monegasca. Não possuindo poder de compra para entrar em nenhum dos pomposos estabelecimentos instalados naquela rua, entretemo-nos a analisar pormenores e produzir irónicas conclusões. Uma delas, a título de exemplo, foi a correlação entre luxuosos restaurantes com nomes do género La Maison du Caviar e quantidade de desfibriladores gratuitos instalados nas vias públicas. É um brinquedo caro, mas não reste dúvidas que é bem preciso por aquelas bandas. Concordo que até pode parecer um exagero que o Mónaco disponha de mais aparelhos desses nas ruas do que Portugal tem de hospitais abertos mas, quando se tem tamanha concentração de gente de meia-idade que passa a vida entre mariscadas regadas de champanhe e hora ao sol deitados em iates, fazer o quê? Além disso, dinheiro para os instalar é que não deve faltar! Outra diversão engraçadamente estúpida que descobrimos para passar o tempo foi classificar diversos tipos de produtos expostos nas vitrinas em percentagem relativa do nosso orçamento de viagem (350 euros, 1 mês). Um bolo de aniversário para a criançada 15%. Um par de sapatos de senhora 130% do nosso orçamento. Um smoking 1200%! “Esquece!”, dizia eu para o Diogo e ele para mim. Seguimos sem pressas a rua principal na direcção do famoso Casino do Mónaco. Não, não entrámos, como é óbvio. Ficámos do lado de fora assistindo atónitos ao grotesco espectáculo proporcionado pela multidão de turistas que, de forma quase ordeira, esperava nas filas espontaneamente criadas até que chegasse a vez de cada um deles desfrutar do privilégio de tirar uma fotografia junto a um dos bólides estacionados no parque do casino pertencentes aos milionários apostadores.

Já quase noite descemos de regresso à marginal, junto à marina, e uma vez mais para ver bólides passar na estrada! Frustante monotonia monegasca não fosse um dos milionários se lembrar de nos pregar uma espécie de partida. Conduzindo aborrecido o seu Ferrari Enzo (segundo me indicou o Diogo, visto que de carros percebo menos que nada), o rapaz pouco mais velho que nós estacionou mesmo à nossa frente, abriu a porta do passageiro e interpelou-nos. Queria saber se algum de nós gostaria de desfrutar do prazer de dar uma volta ao circuito citadino num dos carros mais caros e mais potentes do mundo. Como eu não ligo nenhuma a carros disse de imediato ao Diogo que podia ir ele. Num segundo momento começámos os dois a dialogar sobre a estranheza do convite e se, parados ali à beira da estrada, feitos parvos, talvez se desse o caso (absurdíssimo) de o dono do Ferrari nos tomar, sei lá, por gente que vendia o corpo, literalmente! Enquanto hesitávamos se seria seguro ou não aceitar o convite, um quarto homem que caminhava no passeio apercebeu-se da situação e sem hesitar entrou no Ferrari. Estupefactos com toda aquela insólita história decidimos esperar e assistir ao seu desenlace. Poucos minutos depois víamos o carro voltar ao ponto de partida. O “sortudo” passageiro sorria como se estivesse nas nuvens. O Diogo, perante a constatação que a proposta era genuína e inocente, ficou chateado por ter perdido a oportunidade única de sentir o poder dum Ferrari Enzo… por dentro!

Continuávamos nós a nossa caminhada pela marginal, vagarosos e pensativos quando, de súbito, um senhor parou à nossa frente e meio ofegante começou a contar o seu problema numa fraca mistura de italiano com francês. Teria por certo mais de sessenta anos e o perfil físico típico de utilizadores de desfibriladores, se é que me faço entender. Com muito custo e só à terceira ou quarta tentativa conseguimos decifrar o seu discurso que aparentava ser absurdo. Mas não, o senhor estava era muito nervoso e quase à beira de um ataque cardíaco provocado pela birra do seu filho adolescente. Para seu desgosto, embora a sua fortuna milonária podesse segundo ele adquirir todos os bens que o seu filho desejasse, o rapaz passava a vida amuado com o pai ou embriagado! Ou as duas coisas ao mesmo tempo, como era o caso naquela noite. O pedido do milionário a um par de viajantes com uma fortuna acumulada nos bolsos de cerca de 100 euros era simples: tirar uma foto do seu filho junto nós os dois, “para ver se o raio do rapaz” se animava com a engraçada recordação de tirar uma fotografia ao lado de “gente assim”. “Gente assim” foi dito com um tom pouco diplomático, quase como se tivesse feito o pedido a dois animais falantes num zoo. Apercebendo-se do lapso, pois creio que não tinha sido intencional, o pobre senhor desfez-se em desculpas. Menos pelas desculpas e mais pelo aspecto do iate, com piscina iluminada e uma mesa com o jantar servido, aquiescemos (vendidos!) perante os seus constantes pedidos e fomo-nos colocar um de cada lado do jovem mimado. O rapaz, arrogante e estúpido só não nos espetou um pontapé porque não tinha forças sequer para isso, mas repeliu-nos com uns runhidos de imbecil. Nada feito, o senhor desolado deu-nos as boas noites e recomeçou a discussão com o filho bêbado, cambaleando em sincronia com os passos incertos do filho demasiado perto da berma do cais. Virámos as costas e seguimos na direcção que levávamos antes do incidente, praguejando más sortes e maus destinos àquele mimado que nos tinha feito perder um rico jantar, o qual nos tinha feito lembrar a fome que tínhamos!

De mal com a humanidade e armados em filósofos fomo-nos sentar à beira mar. Atrás de nós estava uma roulote de cachorros quentes e sandes. Ainda demos uma olhada mas os preços fizeram-nos mudar ideias. Teríamos de esperar até ao dia seguinte de manhã para comer em Itália. Voltámos a sentar-nos à beira mar, entretidos a admirar a festa ao estilo Fashion TV que estava a ter lugar num enorme iate mesmo à nossa frente, criticando os capitalistas esbanjadores, as beldades vendidas e… desejando encontrarmo-nos no seu lugar.

Para quem perdeu a primeira parte: Um dia de extremos – 1ª parte

Luís Garcia, 06.01.2016, Lampang, Tailândia

 

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